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O Que São E Para Quê Servem Os Fosfolipídios?

1 setembro 2021
O Que São E Para Quê Servem Os Fosfolipídios?
Postado por Mateus Kurek Pagliosa
Membrana celular que, naturalmente, contém fosfolipídios

Fosfolipídios são lipídios estruturais presentes em alimentos como óleo de krill, gema de ovo e laticínios, necessários para a formação, função e integridade da membrana celular. Além disso, também desempenham funções importantes no controle da inflamação, saúde cerebral e cardíaca.

Neste artigo, trouxemos os principais detalhes sobre os fosfolipídios, bem como seus potenciais benefícios explorados pela ciência.

Confira!

O Que São Fosfolipídios?

Alimentos que contêm fosfolipídios, como laticínios e ovos

Fosfolipídios são derivados de lipídios que contêm fósforo, de característica hidrofóbica e hidrofílica, encontrados em todas as membranas celulares de vegetais e animais. Nelas, estão presentes geralmente na forma de glicerofosfolipídios (GPLs), ácidos graxos esterificados em uma estrutura de glicerol, um grupo fosfato e um resíduo hidrofílico.

O principal componente estrutural de um fosfolipídio também pode ser a esfingosina, um aminoálcool de cadeia longa, que por sua vez forma os esfingofosfolipídios, os quais estão presentes em grandes quantidades no cérebro e no tecido neural (principalmente na forma de esfingomielina).

Outro fosfolipídio importante é a fosfatidilcolina, também chamada de lecitina, a qual consiste em uma mistura de diésteres do ácido fosfórico. Uma função éster é derivada de um diacilglicerol, enquanto que a outra é uma unidade colina.

Nos alimentos, fosfolipídios estão presentes em animais marinhos, como peixes e krill, gema de ovos e laticínios. Os efeitos benéficos dos fosfolipídios na dieta foram mencionados desde o início de 1900 em relação a diferentes doenças e sintomas, incluindo doença coronariana, inflamação e até mesmo câncer.

A Importância Dos Fosfolipídios Para A Membrana Celular

Células e suas respectivas membranas, as quais contêm fosfolipídios

A maioria dos GPLs se organiza formando uma bicamada lipídica, em que suas regiões polares (hidrofílicas) são direcionadas para a superfície externa das membranas, enquanto suas regiões hidrofóbicas são voltadas para a área interna.

Essa bicamada forma barreiras com permeabilidade seletiva, essenciais para a separação eficaz de uma célula ou organela de seu entorno. Isso permite uma baixa permeabilidade da membrana em relação a constituintes celulares, como nutrientes e íons. Vale destacar que a proporção correta de ácidos graxos saturados no organismo é essencial para a manutenção da fluidez da membrana celular.

Em outras palavras, nenhuma membrana ou célula saudável do organismo pode ser formada sem fosfolipídios.

Outras Funções Relacionadas Com Fosfolipídios

Mulher degustando iogurte, que contém fosfolipídios

Embora a principal função dos fosfolipídios se concentre na formação e a biofuncionalidade das membranas celulares, algumas de suas formas específicas desempenham funções especializadas, como:

  • São constituintes estruturais e funcionais presentes na superfície de lipoproteínas, as quais transportam lipídios para os tecidos através da corrente sanguínea;
  • São constituintes de articulações, do pericárdio e de surfactantes gastrointestinais e peritoneais;
  • Desempenham um papel importante durante a absorção intestinal de lipídios;
  • Juntos com o colesterol e ácidos biliares, formam micelas mistas na vesícula biliar para a emulsificação da gordura;
  • Alguns fosfolipídios também atuam como mediadores lipídicos da inflamação;
  • Beneficiam a sinalização celular e funções essenciais dentro das organelas, como as mitocôndrias.

Portanto, os fosfolipídios são lipídios estruturais integrais na formação, função e integridade da membrana celular, mas os pesquisadores estão percebendo que eles possuem uma infinidade de funções adicionais em vários tipos de células e organismos.

Fosfolipídios e controle da inflamação

A inflamação é uma resposta do organismo a estímulos nocivos, que é mantida por uma cascata bioquímica envolvendo mediadores inflamatórios como citocinas e eicosanoides.

Pesquisadores investigaram o potencial de fosfolipídios (na forma de fosfatidilcolina) para o tratamento de artrite induzida em animais. Neste estudo, o desenvolvimento da artrite após a suplementação de fosfatidilcolina foi significativamente reduzido, devido à provável inibição da reação inflamatória mediada por leucócitos neutrófilos.

Os fosfolipídios de origem marinha são investigados por seus efeitos anti-inflamatórios. Um estudo randomizado feito com pacientes com artrite cardiovascular e / ou reumatoide e níveis elevados de proteína C reativa (PCR) avaliou a eficiência de tratamento com óleo de krill, notando que uma dosagem de 300 mg por dia reduziu significativamente os níveis de PCR e os sintomas de artrite, como dor, rigidez articular e comprometimento funcional.

O óleo de krill também demonstrou ser eficaz na redução da dor abdominal, inchaço, sensibilidade mamária, dor nas articulações e sintomas emocionais referentes à TPM. É válido mencionar que os fosfolipídios cerebrais possuem alto teor de DHA e estão envolvidos na função cerebral e modulação de neurotransmissores, motivo que dá ênfase ao benefício de equilíbrio emocional e psicológico em mulheres com TPM.

Ainda, estudos mostram que a suplementação com Phospholipon, um composto que contém fosfolipídios, reduziu dores abdominais e promoveu a cicatrização da úlcera em pacientes com sintomas gastrointestinais causados pelo uso regular de AINEs (medicamentos anti-inflamatórios não esteroides usados no tratamento de dores crônicas).

Fosfolipídeos e câncer

Diversos estudos mencionam efeitos benéficos dos fosfolipídios na inibição de tumores e metástases.

Alguns estudos mostram que a membrana das células cancerosas desenvolve propriedades particulares, como a perda de sua característica adesiva, o que (a grosso modo) as separa do tumor e permite que migrem para outros tecidos e órgãos, causando metástases tumorais.

Os resultados de um estudo in vitro com linhagens de células de câncer hepático demonstraram uma restrição de crescimento quando as células cancerosas foram cultivadas na presença de fosfolipídios presentes na soja e na gema de ovo.

Outro estudo in vitro mostrou que a administração de fosfolipídios marinhos foi capaz de inibir o crescimento de câncer de cólon induzido em animais.

Fosfolipídios, regulação dos perfis de lipídios do sangue e saúde cardiovascular

A suplementação oral com fosfolipídios dietéticos tem sido investigada extensivamente em relação aos perfis lipídicos do sangue e riscos cardiovasculares. 

Estudos sobre o tratamento de pacientes com doença cardíaca coronária utilizando Lipostabil (um remédio que contém fosfatidilcolina, indicado para tratamento e prevenção da embolia gordurosa), mencionaram efeitos benéficos na redução dos níveis de colesterol em até 50%, bem como na prevenção da agregação plaquetária.

Um estudo sobre perfis de lipídios do sangue em pacientes que sofrem de hiperlipidemia mostrou que fosfolipídios marinhos presentes no óleo de krill contribuíram para uma redução significativa dos níveis de colesterol total, LDL e TG, enquanto o HDL (o “bom colesterol”) aumentou significativamente.

Vale destacar que fosfolipídios podem ser parcialmente absorvidos de maneira intacta pelo intestino, e serem incorporados ao HDL. Além disso, fosfolipídios são substrato para a lecitina-colesterol aciltransferase (LCAT), uma enzima que catalisa a conversão de HDL 3 em HDL 2, coletando colesterol dos tecidos periféricos e aumentando os níveis de HDL.

Estudos demonstraram que a esfingomielina, um fosfolipídio esfingosina e principal componente dos fosfolipídios do leite, bem como fosfatidilcolina de ovo hidrogenado, tiveram efeitos significativos nos níveis de colesterol no sangue.

Pesquisadores também vêm investigando os potenciais benefícios da fosfatidilcolina a favor da atividade enzimática do metabolismo dos lipídeos do sangue. Os resultados mostram que, após sua administração oral ou intravenosa, este fosfolipídio causa uma mudança benéfica nos perfis lipídicos do sangue, reduzindo principalmente os níveis de colesterol, alterando as atividades de enzimas importantes no metabolismo lipídico.

Fosfolipídios e saúde neurológica

Sabe-se que, durante o envelhecimento, a composição lipídica das células do cérebro tende a ser alterada naturalmente, e que o declínio da memória e a diminuição das habilidades de aprendizagem de idosos são consequências da diminuição da quantidade de fosfolipídios e ácidos graxos.

Os fosfolipídios demonstraram ser portadores importantes e eficazes de ácidos graxos poliinsaturados (PUFAs), por exemplo, o ácido docosahexaenóico (DHA) para o cérebro. Inclusive, a suplementação oral de fosfolipídios de origem marinha, os quais contêm PUFAs em sua composição, pode desempenhar um papel importante para idosos, e também durante o período de gravidez e na infância.

A suplementação com fosfolipídios também pode restaurar a composição ideal de PUFAs nas membranas celulares e restaurar os mecanismos antioxidantes do cérebro danificados pelo consumo crônico de álcool, que tende a esgotar a quantidade de fosfolipídios nas membranas das células cerebrais.

Mais de 2800 artigos científicos sobre o cérebro e a função neurológica exploraram o potencial da fosfatidilserina, um dos glicerofosfolipídios (GPL), para o desempenho cerebral e prevenção do declínio cognitivo.

Um artigo de revisão descreveu 9 ensaios clínicos duplo-cegos, controlados por placebo, investigando o resultado do tratamento de fosfatidilserina de um total de 1224 pacientes afetados por Declínio Cognitivo Relacionado À Idade e/ou Alzheimer precoce. Neste artigo, foi demonstrado que a suplementação de fosfatidilserina proporcionou melhoras significativas nas funções de cognição e memória em comparação ao grupo de placebo.

Além destes benefícios relacionados aos fosfolipídios, a fosfatidilcolina pode ser uma doadora de colina útil para o tratamento de doenças neurológicas. Durante o desenvolvimento do feto, a colina é importante para o tecido cerebral, pois serve tanto como componente da membrana celular quanto como precursora do neurotransmissor acetilcolina.

Fosfolipídios e imunidade

Os fosfolipídios também contribuem com a imunidade.

Com o passar dos anos, as membranas celulares podem sofrer alterações em suas propriedades e funções, o que gera prejuízos para a função imunológica. Pesquisadores mostraram que o aumento do conteúdo de fosfolipídios nas membranas celulares dos linfócitos pode beneficiar a viscosidade destas membranas e restaurar a função imunológica em idosos.

Fosfolipídios e saúde do fígado

Devido às suas propriedades, os GPLs têm sido prescritos para tratamentos de doenças hepáticas, como hepatite viral e lesão hepática induzida pelo álcool.

Em um ensaio clínico incluindo pacientes com consumo crônico de álcool e lesão hepática induzida pelo álcool, o tratamento com fosfatidilcolina de soja demonstrou ser eficaz na melhora dos sintomas relacionados ao fígado, como colestase e icterícia. Também foi verificado que a suplementação de fosfolipídios também é benéfica após a ocorrência de danos hepáticos causados por toxinas e infecções virais.

A suplementação com extrato de leite rico em fosfolipídios também tem mostrado ser benéfica para a saúde do fígado. Pesquisas mostram que os benefícios relacionados a este tipo de extrato de leite podem reduzir os triglicerídeos e lipídios totais do fígado, bem como o colesterol total.

Um estudo feitos com ratos submetidos a uma dieta rica em gordura e extrato de leite rico em fosfolipídios observaram que a expressão das enzimas responsáveis ​​pela síntese hepática de ácidos graxos diminuiu significativamente, e que a produção de ácido biliar também foi reduzida. Assim, o estudo sugere que os fosfolipídios presentes no leite e em produtos lácteos têm o potencial de proteger não apenas contra eventos cardiovasculares adversos, mas também de reduzir a hepatomegalia e a esteatose hepática.

Fosfolipídios E Óleo De Krill

O óleo de krill é famoso por suas propriedades antioxidantes relacionadas à astaxantina, um de seus compostos mais poderosos. Mas a verdade é que ele também proporciona um ótimo proveito das gorduras ômega 3 – sendo mais eficiente, até mesmo, que o óleo de peixe.

Mesmo que o óleo de krill apresente menor quantidade por grama de EPA e DHA do que o óleo de peixe, é preciso consumi-lo em menor quantidade do que óleo de peixe para atingir níveis ideais de ômega 3.

Isso acontece por causa da ação de seus fosfolipídios, que proporcionam um aumento a absorção do ômega 3. Além disso, a astaxantina também contribui para que estes ácidos graxos não sejam oxidados.

Considerações Finais

Os fosfolipídios são componentes importantes para a formação, função e integridade das membranas celulares. Além disso, apresentam potenciais vastos para o equilíbrio da saúde. Pesquisas mostram bons resultados relacionando o uso de fosfolipídios em benefício do controle da inflamação, melhora das defesas contra radicais livres e saúde do coração, cérebro e fígado. Boas fontes de fosfolipídios incluem óleo de krill, gema de ovo e laticínios.

Até a próxima!

Referências:

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